No Parlamento, a política muitas vezes parece um jogo de conveniências. Recentemente, vimos votos contra o pacote laboral vindos de quadrantes políticos que raramente se põem ao lado de quem trabalha. Há quem tente agora usar essa votação para se colar à vitória e fazer passar a ideia de que foi este ou aquele partido que travou a lei. Mas quem pensa assim está redondamente enganado: esses votos contra foram condicionados, arrastados e empurrados pela força imparável de quem se uniu nas ruas, nas empresas e nos locais de trabalho. Não foi boa vontade política; foi o peso da contestação popular que não lhes deu outra alternativa.
A votação dos deputados foi apenas o resultado de uma barreira que os trabalhadores já tinham construído lá fora. Dar o mérito desta vitória aos jogos e ao oportunismo dos partidos seria apagar a história recente e esquecer todos aqueles que, dia após dia, dão o corpo ao manifesto.
Os três pilares da nossa força:
União, Organização e Resistência
Esta vitória não caiu do céu nem se deveu a debates na televisão.
Foi construída no chão da fábrica, nos escritórios e nos serviços, assente em três pontos fundamentais:
A mobilização de quem trabalha:
A certeza clara de que os direitos não são uma oferta, conquistam-se. Foi a coragem de cada homem e mulher que decidiu cruzar os braços que fez recuar quem queria aumentar a precariedade e tirar direitos.
A força dos sindicatos:
O papel dos sindicatos foi essencial para juntar as vozes de todos e transformar a revolta individual numa força organizada. Foram eles que ajudaram a esclarecer, a unir e a traçar um caminho claro para responder a este ataque.
A coragem dos piquetes de greve:
Na linha da frente, a resistir às pressões dos patrões e a garantir que ninguém ficava isolado, os piquetes de greve foram o exemplo vivo da entreajuda entre colegas e a garantia de que a greve funcionou a sério.
A história mostra que os governos, os patrões e os partidos de conveniência só recuam quando quem trabalha se une e mostra a sua força através do protesto e da solidariedade no dia a dia.
A rua é que decide
Mais do que perder tempo a olhar para os votos de forças políticas que mudam de opinião conforme o vento e os seus próprios interesses, o que importa destacar é quem realmente venceu esta batalha: os trabalhadores.
Certas bancadas parlamentares só votaram contra porque sabiam que, se votassem a favor, enfrentariam a fúria e o julgamento de uma classe trabalhadora mobilizada. Foram encurralados pela rua. Quando quem produz a riqueza se une e se organiza, os políticos são obrigados a recuar.
Vozes do Terreno:
O caminho que os trabalhadores defendem para o futuro
Olhando para os relatos e para as opiniões de quem esteve na linha da frente desta resistência, há uma certeza partilhada por muitos trabalhadores: esta vitória provou o nosso poder, mas não pode ser o fim da linha. O sentimento geral é que este é o momento de manter a coesão e passar à ofensiva.
Quem trabalha defende que não nos podemos limitar a defender o que já temos. O caminho agora deve ser o de exigir exatamente o oposto daquilo que o patronato e o governo queriam impor. Se a intenção deles era retirar direitos e aumentar a exploração, a resposta em cada setor deve ser a exigência de estabilidade, dignidade e progresso social.
Para consolidar esta vitória, a grande meta apontada por quem está no terreno tem de ser a contratação coletiva. É através dela, com os trabalhadores unidos e organizados nos seus sindicatos, que se vão salvaguardar os direitos no papel e arrancar melhores condições de trabalho e salários justos no dia a dia.
A derrota deste pacote laboral deve servir de combustível para as lutas que aí vêm.
O futuro não se espera, constrói-se com a unidade, a exigência e a força organizada de quem trabalha.