A Ilusão da Inflação: A Verdade do Supermercado | Voz Ativa
VA

Voz Ativa

Voltar

A Ilusão da Inflação

Porque é que a TV diz que está a baixar, mas o supermercado continua a encarecer?

Chega a casa, liga o telejornal e ouve a notícia: "A inflação em Portugal desceu para a casa dos 2,3%". Respira de alívio, a pensar que o pior já passou. Mas, no fim de semana, vai ao supermercado comprar exatamente os mesmos produtos e a conta na caixa regista mais um aumento.

Como é que isto é possível? Estarão os noticiários a mentir ou os supermercados a cobrar a mais? A resposta não é uma teoria da conspiração, mas sim um grande mal-entendido sobre o que os números da economia significam na realidade, misturado com o aproveitamento de algumas marcas.

Neste artigo, desmontamos a "ilusão da inflação" e explicamos, com factos e exemplos simples, os truques matemáticos e comerciais que continuam a esvaziar a sua carteira.

1

A matemática da ilusão: Abrandar não é recuar

O maior erro que todos cometemos é achar que, quando a inflação "desce", os preços também descem. Na economia real, não é isso que acontece. A inflação mede apenas a velocidade a que os preços estão a subir (o processo de "desinflação").

O exemplo do carro:

Imagine que vai num carro a 120 km/h e, de repente, trava e abranda para 20 km/h. O carro está a andar muito mais devagar, mas continua a ir para a frente.

Com os preços passa-se exatamente o mesmo. Há um ou dois anos, a inflação chegou aos 8% ou 9% (o carro ia a 120 km/h). Os preços dispararam. Hoje, a inflação desceu para os 2,3% (o carro vai a 20 km/h). Isto significa que os preços continuam a subir 2,3%, e esse aumento é somado aos preços altíssimos que já tinham ficado do ano passado!

Para os preços voltarem ao que eram antes da guerra ou da pandemia, a inflação teria de ser negativa (um fenómeno chamado "deflação"), o que equivaleria a meter o carro em marcha-atrás. E isso não está a acontecer.

2

A média que não vai para o tacho: O Cabaz do INE

Quando o Instituto Nacional de Estatística (INE) anuncia que a inflação é de 2,3%, esse número é uma média geral calculada através do Índice de Preços no Consumidor (IPC). Para calcular este valor, o INE cria um "cabaz" gigante que inclui milhares de coisas: comida, roupa, computadores, bilhetes de avião, eletricidade, cortes de cabelo e até carros.

O problema desta média é que esconde a sua realidade diária. Se o preço das televisões, dos computadores ou da eletricidade descer, isso puxa a média geral da inflação para baixo. A questão é que as famílias não compram televisões todas as semanas, compram azeite, arroz, ovos e carne.

E, em muitos casos, a chamada "inflação alimentar" continuou a subir a um ritmo muito superior a esses 2,3%. Enquanto a média na televisão parece simpática, o preço dos produtos essenciais (aqueles que não podemos mesmo deixar de comprar) continua a pesar muito mais no nosso orçamento.

Fator Extra: O Crédito Habitação. O cabaz clássico da inflação também não capta plenamente o impacto devastador do aumento das taxas de juro (Euribor). Para quem paga casa ao banco, o custo de vida real aumentou a níveis drásticos que a percentagem da inflação anunciada simplesmente não reflete.

3

As desculpas das marcas: Ganância e Truques

A subida real dos custos (como a energia e os transportes) criou o cenário perfeito para as grandes marcas e supermercados aumentarem as suas próprias margens de lucro de forma silenciosa. Instituições como o Banco Central Europeu já alertaram para este fenómeno, a que os especialistas chamam de Greedflation (inflação gerada pela ganância). Como as pessoas já estavam habituadas a ouvir que "tudo está mais caro", muitas empresas aproveitaram essa desculpa para subir os preços além do necessário, garantindo lucros recorde.

Quando não conseguem subir mais o preço na etiqueta, usam truques factuais e legais:

A "Reduflação" (Shrinkflation)

Reduzir para inflacionar. O pacote de bolachas ou a lata de atum mantêm o mesmo preço e a mesma embalagem visual, mas em vez de trazerem 200 gramas, passam a trazer apenas 170 gramas. Você paga exatamente o mesmo, mas leva menos comida para casa. É um aumento de preço camuflado.

A "Piorflação" (Skimpflation)

Piorar a receita. A marca mantém o preço e o tamanho da embalagem, mas substitui os ingredientes originais por alternativas mais baratas (e de menor qualidade). Exemplo: usar óleo de girassol em vez de azeite numa receita, ou reduzir a percentagem de cacau no chocolate, cobrando-lhe o mesmo valor.

Como é que o consumidor se pode defender?

A passividade é a melhor amiga de quem nos quer cobrar mais. Para combater a ilusão da inflação, adote estes hábitos:

Preço por Quilo/Litro

Esqueça o preço da embalagem ou a etiqueta colorida de "Promoção". Face à reduflação, a única forma de saber a verdade é olhar para as letras mais pequenas na etiqueta que mostram o "Preço por Kg" ou "Preço por Litro". Este número não o engana.

Mude de Marca

Se a sua marca preferida disparou de preço e recusa baixar, experimente as marcas da própria distribuição (marcas brancas). Na esmagadora maioria dos casos, são produzidas nas mesmas fábricas que as marcas famosas, mudando apenas o rótulo.

Atenção a Promoções

Muitas vezes, o preço base de um produto de marca é inflacionado antes da campanha para parecer um grande negócio. Compare sempre: mesmo com "metade do preço", o produto de marca costuma ser mais caro por quilo do que a marca branca ao lado.

Histórico de Preços

Consulte plataformas ou extensões online que acompanham a evolução dos preços nos supermercados em Portugal. Saber quanto custava aquele azeite há 3 meses impede que caia em falsas campanhas de desconto.

Conclusão: Não Compre a Ilusão

Dizer que a inflação está a descer é factualmente correto para a matemática dos economistas, mas é uma armadilha psicológica para quem vai às compras. O custo de vida não está a baixar, apenas está a encarecer um pouco mais devagar.

Enquanto os salários não subirem na mesma proporção dos aumentos brutais que sofremos nos últimos anos, a perda do nosso poder de compra continuará a ser muito real.

A sua melhor defesa é a informação pura, a comparação rigorosa dos preços por quilo e a recusa em pagar margens de lucro inflacionadas.

A Tua Voz: Participa no Debate

Este é um espaço seguro para partilhares a tua experiência, opinião ou dúvidas sobre este tema.