Quando vai abastecer o carro, a frustração é fácil de entender. É inevitável pensar: "Se o petróleo que a gasolineira está a vender hoje foi comprado há meses, quando era muito mais barato, porque é que o preço na bomba dispara mal rebenta uma guerra na Ucrânia ou no Irão?" E, pior ainda, "porque é que, quando o preço do petróleo finalmente desce, os preços nos postos demoram semanas a baixar?"

A resposta não é uma conspiração secreta, mas sim a forma como as regras do comércio mundial estão desenhadas. Empresas como a Galp, BP ou Shell têm tido os maiores lucros da sua história. Para nós, parece injusto, mas, para o mercado, é apenas a aplicação das regras.

Neste artigo, explicamos de forma simples como as grandes petrolíferas transformam a instabilidade no mundo em lucros gigantescos e o que você pode fazer para contrariar esta tendência.

1. O truque do preço: Comprar barato, vender ao preço de hoje

A principal queixa das pessoas é que as empresas usam as notícias de guerra (que fazem o preço do petróleo subir hoje) para nos vender combustível que estava guardado nos tanques há meses, comprado a preços muito mais baixos.

Isto é verdade e tem um nome: Efeito de Stock. O caminho do petróleo é longo: desde que é extraído, viaja de barco, vai para a refinaria e chega à bomba de gasolina, passam-se meses.

No entanto, as petrolíferas não vendem o combustível com base no que pagaram por ele no passado. Elas usam o chamado "Custo de Substituição". Imagine um padeiro: se ele comprou farinha a 1€ há um mês, mas hoje a farinha custa 2€, ele vai vender o pão mais caro hoje para ter dinheiro para comprar a farinha de amanhã.

As petrolíferas fazem o mesmo. Quando rebenta uma guerra (como o atual conflito com o Irão) e o preço mundial dispara, elas passam a cobrar-nos esse preço mais alto na bomba. A diferença entre o petróleo barato que compraram no passado e o preço caro a que nos vendem hoje entra diretamente para o bolso delas como lucro puro.

2. A "Taxa do Medo": O conflito com o Irão

No atual conflito no Médio Oriente, as petrolíferas ganham muito dinheiro com aquilo a que podemos chamar a "Taxa do Medo" (o mercado chama-lhe prémio de risco).

Mesmo que o petróleo não falte, os mercados mundiais ficam assustados. Têm medo que o conflito feche a passagem dos navios no Médio Oriente (por onde passa 20% do petróleo do mundo). Por causa desse medo de que o petróleo venha a faltar no futuro, o preço dispara imediatamente hoje. As petrolíferas cobram-nos esse medo logo na bomba, ganhando muito dinheiro com um problema que, na prática, ainda não afetou a quantidade de petróleo disponível.

3. O negócio das refinarias: A herança da Ucrânia

O petróleo bruto que sai da terra não pode ser posto no carro, tem de ser transformado (refinado) em gasóleo ou gasolina. E é aqui que as empresas têm feito fortunas desde a guerra na Ucrânia.

Antes de 2022, a Europa comprava muito gasóleo já pronto à Rússia. Com a guerra, a Europa deixou de comprar aos russos. De repente, passou a haver falta de refinarias na Europa para fazer todo o gasóleo que precisamos.

O que aconteceu? Quem tem refinarias a funcionar em pleno (como a Galp, em Sines) passou a ter a faca e o queijo na mão. Os custos que eles têm para transformar o petróleo não mudaram quase nada, mas como há pouco gasóleo feito na Europa, eles podem cobrar o dobro ou o triplo por esse serviço.

4. Sobe como um foguetão, desce como uma pena

Se as petrolíferas usam o preço do mercado de hoje para nos cobrar mais caro, porque é que não baixam o preço com a mesma rapidez quando o petróleo fica mais barato?

Os economistas chamam a isto o fenómeno dos "Foguetões e Penas": os preços sobem à velocidade de um foguetão ao mínimo sinal de crise, mas descem muito devagarinho, a flutuar como uma pena. Isto acontece por três motivos:

Jogar pelo seguro

Se o preço do barril cai hoje, as gasolineiras não baixam logo o preço na bomba porque têm medo que um novo ataque amanhã faça o preço subir de novo. Mantêm o preço alto para se protegerem.

A nossa falta de paciência

Quando o combustível sobe muito, as pessoas entram em pânico e procuram logo a bomba mais barata. Para não perderem clientes, as bombas mexem nos preços muito rápido. Mas quando o preço começa a descer, as pessoas relaxam e deixam de procurar alternativas. Sem a nossa pressão, as marcas demoram o tempo que quiserem a baixar os preços.

Dois pesos e duas medidas

Quando o petróleo fica barato, a regra do "Custo de Substituição" (ponto 1) é convenientemente esquecida. As marcas justificam a manutenção dos preços altos argumentando que ainda precisam de escoar reservas compradas no pico da crise. Na prática, usam o stock antigo como desculpa para esticar a margem de lucro e adiar o alívio para os consumidores.

5. O que podemos fazer para contrariar este jogo?

Como vimos, as gasolineiras demoram a baixar os preços porque sabem que nós, consumidores, relaxamos quando as notícias de aumentos acalmam. A nossa maior arma contra esta lentidão é a pressão da concorrência.

Sozinhos não mudamos o preço do barril de petróleo, mas juntos podemos forçar as bombas a baixar os preços mais depressa. Como?

Acabar com a "lealdade" às marcas

Quando souber que o preço do petróleo desceu, não vá à bomba do costume só por hábito. Use aplicações ou sites para ver quem já baixou o preço. Se todos formos abastecer ao posto que baixou primeiro, os outros vão ter de baixar o preço a correr para não perderem clientes.

Perder o preconceito contra o "low-cost"

Em Portugal, a esmagadora maioria do combustível base sai exatamente da mesma refinaria em Sines. Abastecer nos supermercados ou em bombas de marca branca obriga as gigantes petrolíferas a apertar as suas margens de lucro para conseguirem competir.

Ser estratégico a atestar o depósito

Se as notícias dizem que o preço do petróleo está a cair, não encha o depósito todo. Ponha apenas o mínimo necessário e espere que a descida chegue aos postos. Se souber que vai subir na segunda-feira, ateste no fim de semana.

Apoiar a pressão pública

Estar informado e apoiar entidades de defesa do consumidor ajuda a criar pressão política para que exista maior transparência e regulação no setor.

Conclusão As regras estão do lado deles

As petrolíferas não precisam de fazer nada ilegal para ganhar balúrdios com a guerra, as regras do comércio mundial já estão feitas para as favorecer.

Numa altura de tantas guerras e conflitos internacionais, as empresas ganham quando os preços sobem (porque vendem caro o que compraram barato) e ganham quando os preços descem (porque demoram muito tempo a baixar o preço na bomba).

O risco fica sempre para quem abastece o carro, enquanto os lucros recorde vão para as grandes corporações. A nossa única defesa é a informação e a nossa escolha enquanto consumidores ativos e exigentes.

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